Foram 45 dias de agonia até o garçom Reinaldo Junior encontrar Pandora, sua cadelinha, que desapareceu durante a conexão de um voo em Guarulhos, quando vinha do Recife com destino a Navegantes, em Santa Catarina, em dezembro. Outro episódio aconteceu este mês, com a filhote da raça border collie Zoe, de 4 meses. Ela foi esquecida num avião no transporte entre São Paulo e Fortaleza e acabou indo parar no Rio. A tutora, Priscila Carneiro, só conseguiu encontrá-la na noite seguinte.

Episódios assim acendem o alerta para o transporte de animais de estimação em aviões, sobretudo quando vão fora da cabine, em compartimentos. E chamam a atenção para os cuidados a se tomar.

A analista de planejamento financeiro Tereza Chagas, de 26 anos, tutora dos chihuahuas Romeo e Dimitri, diz que só teve boas experiências ao embarcar com seus pets na cabine. Eles eram passageiros frequentes quando ela ia de São Luís para São Paulo visitar a irmã, há alguns anos. Na época, um tinha pouco mais de 1 ano de idade, e o outro, 4 meses.

— Em todas as vezes, eles ficaram bem tranquilos. No início, ficavam mais agitados na hora de entrar na caixinha, mas depois se acalmavam. Foram se acostumando — lembra Tereza. — Eles nunca latiram, e os outros passageiros nunca reclamaram, até achavam bonitinho. Os comissários de bordo também deixavam abrir um pouco a caixinha antes de decolar, para eles se tranquilizarem.

A tutora destaca que não deixa para trás os cuidados com a saúde dos bichinhos, especialmente antes de viajar, e conta que, se não fosse pelo cansaço para os animais, gostaria de levá-los sempre.

— Quando vou para algum lugar em que ficarei em um apartamento ou casa de amigos e família e sei que haverá mais espaço, gosto de tê-los comigo, se não eu sinto saudade— afirma.

Entre os riscos para o animal, os documentos necessários e as regras de transporte, são muitas as dúvidas na hora de pensar em levar seu melhor amigo animal em uma viagem aérea. Confira nosso guia com tudo o que você precisa saber antes de planejar sua viagem.

Vale a pena levar?

A primeira coisa a se considerar ao embarcar um animal é sua segurança. Antes da viagem, é importante procurar um veterinário para fazer um check up e verificar se está em condições de saúde adequadas para o deslocamento. Além da idade, a raça do animal pode representar um fator de risco, como alerta o veterinário da Fiocruz Paulo Abílio.

— As raças braquicefálicas (de “focinho achatado”, como os cães pug, bulldog francês e boston Terrier, e os gatos persa e angorá) precisam de um cuidado maior porque possuem uma má formação anatômica que dificulta a respiração. Além disso, algumas raças que já são agitadas, como maltês, yorkshire, pinscher ou chihuahua, podem ficar ainda mais e ter um descompensamento cardiovascular extremo, botando em risco a vida do animal.

As vacinas também têm que estar em dia, destaca o veterinário:

—No Brasil, a única obrigatória é contra a raiva, mas há outras que também são importantes, como a imunização contra a leishmaniose, que é endêmica em regiões de Minas Gerais, interior de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Piauí e Maranhão. Já para os gatos, a vacinação para Felv é recomendável em qualquer viagem.

Abílio ressalta que as viagens em compartimento são mais críticas do que as na cabine, já que os tutores não têm um controle efetivo sob as condições de temperatura e luminosidade, e os bichinhos podem ficar mais ansiosos por estarem sozinhos, mas faz uma ressalva:

— Apesar de existir o risco, é bom destacar que, estatisticamente, os incidentes são pequenos diante do número de animais que viajam.

A LATAM, por exemplo, informa ter transportado dentro do Brasil, em 2021, quase 55 mil pets na cabine e mais de 18,8 mil no porão, e destaca que “a segurança e o bem dos animais durante sua experiência em voo faz parte da política da empresa e são fatores inegociáveis”.

A Gol diz que, no transporte de animais no compartimento de carga, há a opção do serviço Sempre Comigo, que conta com um responsável pelo cuidado com os pets, enviando aos tutores mensagens de texto, fotos e vídeos para informar em tempo real sobre o bem-estar do animal durante os processos de embarque e desembarque, incluindo conexão de voos.

Dicas de especialista

A seguir, veja alguns conselhos para ter férias seguras com os pets:

  • Prefira viagens mais curtas, com mais escalas, a trechos mais longos. Demora mais, mas fica mais fácil de sair e dar apoio ou socorro caso seja necessário. E dê preferência a horários de viagem mais cedo ou à noite, quando as temperaturas são mais amenas e os voos, em geral, são mais silenciosos e tranquilos.
  • Por volta de três dias antes de viajar, inicie uma alimentação mais leve, especialmente no dia da viagem.
  • Para tentar reduzir o stress do bichinho, uma dica é ir acostumando-o aos poucos com situações que simulem as condições da viagem. Tente inserir a caixinha em que ele será transportado no cotidiano da casa, num local acessível e com a portinha aberta, para que ele possa entrar e sair quando quiser. Especialmente para cachorros, que não têm esse costume. Petisquinhos lá dentro podem tornar a caixinha mais atraente.
  • Escolha uma casinha simples, menos exposta, sem muita informação visual e que não seja transparente. É bom jogar um pano por cima, para deixar o animal menos agitado. Coloque lá dentro um tapete higiênico e carregue ainda um ou dois sobressalentes. Leve também um paninho com cheiro de casa para que ele se sinta mais confortável.
  • Não é recomendado o uso de tranquilizantes a qualquer pet durante a viagem aérea porque a sedação inibe a regulação respiratória e da temperatura corporal, podendo ter outros efeitos negativos na fisiologia animal. No entanto, profissionais podem prescrever algum ansiolítico ou outra forma de prevenção para diminuir o estado de agitação.
  • Se for viajar para sítios e fazendas, onde é mais comum doenças transmitidas pelo carrapato, aposte em repelentes em forma de coleira ou pipeta para proteger os caninos.

Documentos necessários

Viagens nacionais

Para embarcar com animais em trechos nacionais, é preciso apresentar um atestado sanitário com validade de 10 dias da data de emissão, que deve mostrar que o pet está em boas condições para viajar em aeronaves. O documento deve ser preenchido pelo veterinário e, além do nome do proprietário do pet, deve trazer informações completas do animal de estimação: raça, nome, idade, origem e pedigree (se houver). Este documento também pode ser emitido pelas Secretarias estaduais de Agricultura. Como o atestado pode ser retido pelas autoridades no aeroporto, recomenda-se levar mais de uma via.

O atestado sanitário pode ser substituído pelo passaporte para trânsito de cães e gatos, um documento oficial emitido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Visite www.agricultura.gov.br para informações sobre emissão e países de aceitação.

Além disso, é exigida a carteira de vacinação em dia, incluindo a vacina antirrábica, obrigatória para animais a partir de 3 (três) meses de idade. Essa vacina precisa ter sido aplicada há mais de 30 dias e há menos de um ano do embarque.

Viagens internacionais

No caso de viagens internacionais, são necessários os mesmos documentos exigidos em trechos nacionais e ainda um Certificado Veterinário Internacional (CVI), emitido por um profissional veterinário credenciado, e um Certificado Zoosanitário Internacional. Vale lembrar que cada destino possui requisitos próprios, então é importante conferir os canais oficiais de cada país.

Regras de transporte

Gol

Na Gol, cães e gatos a partir de 4 meses, com até 10 kg (incluindo a caixa de transporte), podem viajar na cabine de passageiros. As dimensões permitidas para a caixa de transporte flexível levada na cabine são 24cm (altura) x 32cm (largura) x 43cm (profundidade), e para caixa de transporte rígida são 22cm (altura) x 32cm (largura) x 43cm (profundidade). O valor do trecho por animal varia de R$ 250 (nacional) a R$ 600 (internacional).

Já os que pesem até 30kg (incluindo a caixa de transporte) devem ser transportados no compartimento exclusivo para animais. O pet deve ser transportado somente na caixa de transporte rígido (fibra ou plástico resistente) com dimensões máximas de 82 cm (altura) x 114 cm (largura) x 142 cm (profundidade). O valor do trecho por animal varia de R$ 850 (nacional) a R$ 1100 (internacional). Nesta categoria, não são permitidas as raças braquicefálicas.

Na companhia, há ainda uma opção de transporte no compartimento exclusivo para animais para outras espécies, de qualquer peso e desacompanhados. Os preços são variáveis por trecho. Nesta categoria,  há disponível o serviço Sempre Comigo, que conta com um responsável pelo cuidado com os pets, enviando aos tutores mensagens de texto, fotos e vídeos para informar em tempo real sobre o bem-estar do animal durante os processos de embarque e desembarque, incluindo conexão de voos.

A empresa, que transportou 73 mil bichinhos no ano passado, se responsabiliza por possíveis suspeitas de degradação na condição de saúde ou integridade física dos animais durante o transporte. Segundo a companhia, o animal deverá ser avaliado por um veterinário, e, se for identificada qualquer ação ou omissão da GOL que tenha contribuído para tal condição, será responsabilizada.

LATAM

O serviço do transporte de pets pela Latam voltou a operar no fim do ano passado, após ter sido suspenso por causa da morte de dois cães durante voos. A empresa iniciou uma parceria com a ONG Ampara Animal e adotou novos protocolos para a viagem de pets.

Cães e gatos a partir de 4 meses de idade podem ser transportados na cabine, desde que o peso total (pet + caixa/kennel) não ultrapasse 7 kgs. A bolsa especial para transporte deve ficar dentro de 36 cm (profundidade) X 33 cm (largura) X 23 cm (altura), enquanto a caixa/kennel não pode passar de 36 cm (profundidade) X 33 cm (largura) X 19 cm (altura). O preço do trecho por animal em viagens nacionais é de R$ 200 e varia entre US$ 200 e 250 nas internacionais.

O animais de até 45kgs (pet + caixa/kennel) e a partir de 4 meses de idade são transportados no porão da aeronave em caixas de fibra de vidro ou plástico rígido. Todas as caixas de transporte devem conter compartimento de comida e bebedouro com água que possam ser acessados pelo lado de fora. Uma porção do alimento deve ser entregue pelo tutor à equipe da companhia aérea. O preço do trecho por animal varia de acordo com o peso e a rota — a partir de R$ 500, nas viagens nacionais, e a partir de US$ 125, nas internacionais.

Se o pet superar o limite de 45 kg, estiver na lista de raças perigosas ou braquicefálicas, ou for de outras espécies, a partir de 2 meses,  ele será transportado pela LATAM Cargo, só podendo embarcar em voos diretos e em horários limitados para evitar picos de calor, e deve ser transportado em caixas de fibra de vidro, plástico rígido ou madeira.

Como parte das mudanças, a companhia se comprometeu ainda a diminuir os tempos de espera e deslocamento dos animais. Só serão permitidas as viagens de pets com conexões se intervalo entre origem e destino for de, no máximo, sete horas.

Azul

Na Azul, cada cliente tem o direito de levar apenas um pet (cães e gatos acima de 4 meses) na cabine durante seu voo. O peso total (animal + container) deve ser de, no máximo, 7 kg. Para este serviço é cobrada taxa de R$ 250 ou US$ 100 (para compras no exterior) por trecho, em voos nacionais. Já para voos internacionais, a taxa é de US$/EUR 150 por trecho para transporte na cabine economy e US$/EUR 300 na cabine executiva.

São aceitos dois tipos de embalagem: o container rígido ou a mala flexível. As dimensões devem ser de, no máximo, 43 cm (comprimento) X 31,5 cm (largura) X 20 cm (altura). A empresa não disponibiliza o transporte de animais acima de 7 kg.

A companhia, que embarcou mais de 50 mil animais na cabine ao longo do ano passado, destaca que a responsabilidade sobre os animais é de seus respectivos tutores, e que a empresa é responsável apenas por danos ocorridos durante a execução do contrato de transporte, nos limites estabelecidos em lei.

 

Fonte: O GLOBO

Foto: Canva

Share This